Carine Araújo - Pedaços de mim...

Contos e Crônicas


19/09/2005


O 11 de setembro

O 11 de Setembro

 

            11 de setembro de 2003. Todas as atenções voltadas para os arquiinimigos Estados Unidos e Oriente Médio. Mais um atentado terrorista era esperado a qualquer momento. Depois de meses de conflito direto e de uma pseudo-paz armada, Osama Bin Laden, ou até mesmo Saddan Hussein, deveria querer se vingar do mais novo anticristo: George W. Bush. E nenhuma data era mais propícia para isso que a rememoração de dois anos do atentado que destruiu as torres gêmeas do World Trade Center, coração de Nova York, de Manhattan, dos EUA, do mundo. Comoção geral, mesmo dois anos depois. E uma lastimável situação de espera pelo pior.

            Daqui do Brasil, mais especificamente da Bahia, onde a ponte não é aérea, é a D. Pedro II, ligando Cachoeira a São Félix, podíamos respirar bem mais aliviados: nem de binóculos avistaríamos as supostas explosões e, atrocidade por atrocidade, já basta o caos do dia-a-dia, quem ia ligar a TV pra esperar desastre?

            Pois foi no meio dessa explosiva história (você sempre dando um jeito de infiltrar sua área) que nos encontramos, em plena tarde de quinta-feira, 11 de setembro. Não tínhamos torre, nem irmãos gêmeos, e, enquanto alguma coisa lá fora desmoronava, entre nós tudo estava apenas começando.

            E lá vinha eu: uma autêntica romântica desiludida, cabeça nas nuvens, sempre carregando comigo milhares de modernistas, árcades, sobretudo românticos. Gostando de sentir a minha língua roçar a de Camões. Baixinha por fora, mas por dentro, esperando ser desvendada. Mil mistérios a espera de descobridor. Olhava para os dois lados da rua antes de atravessá-la, a procura de carros ou de alguém?

            E lá vinha você, andando apressado pela rua em lado e direção contrários a mim.Trazia sob a boina mente e olhos abertos para vi-ver a vida, filosofando sobre os não lugares, como aquela rua em que, de repente, nos encontramos. E, com a licença de Bilac, de súbito paramos, o cruzar instantâneo do olhar, fazendo relembrar torres ruídas no passado: professor e aluna anos atrás, reflexo dos amores platônicos sempre tão previsíveis e tão irrealizáveis. Sempre?

            O encontro: abraços e beijos ardentes, o convite, aparentemente inocente, para um café. A conversa leve, sempre agradável, infestadas de gestos, temas recorrentes, volta e meia tornando ao mesmo ponto. O que seria tudo aquilo? Simples palavras lançadas ao vento a espera de um terreno fértil que as germinasse por tempo (in)determinado? Eu me perguntava, enquanto ria e transmitia um olhar profundo dentro da profundidade que era dele, que era ele. Pedaços de música, toques disfarçados... Olhava, olhava, tentando decifrar quem seria realmente aquela pessoa a minha frente e o que ele, de um jeito tão sutil, tentava transmitir a mim.Não sei. Só sei que a semente se infiltrou – quem sabe por osmose, os corpos tão próximos!

 E o tempo a passar, silencioso, para que não o percebêssemos. A noite caía levemente e a lua cheia, sempre ela, se estabelecia no céu. Estrelas, constelações, magia que iria se eternizar... Tanto a dizer, a sentir, o coração sem querer calar e... ops! O horário da aula se aproxima, o carro é perdido, o primeiro avião atinge a torre, anunciando separação. O brilho do luar refletido nas calmas águas do rio acompanhava o casal que seguia a lenda, atravessando a ponte do lado dos verdadeiros amantes. O ônibus chega: a segunda torre desmorona sob nossos olhares lânguidos. Vontade de reconstruir torres mais fortes, e mais fortes e mais... até que nada nem ninguém fosse capaz de demolir. Um vai, outro fica, e sou eu quem vai, enquanto a lua permanece no céu-mar e nós um no outro...

 

 

Carine Araújo

Escrito por Carine Araújo às 15h14
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A Aurora de um dia comum

A aurora de um dia comum

 

Foi há pouco tempo, eu ainda me lembro de toda aquela história que presenciei. Fora triste o suficiente para que eu a trouxesse guardada na memória. E creio que não sou o único. Todos que puderam observar aquele fato, amigos e familiares, devem ainda lembrar do que ocorreu com ela. E hoje, depois de tudo ter se tornado passado, eu fico a imaginar o quanto isto deve ter doído nela, porque em mim, mero observador, ainda dói.

            Maria era uma guerreira, era sim. Durante muito tempo lutou contra tudo aquilo que fora o motivo de sua existência. Tentou a todo custo apagar de sua memória tudo o que um dia existira, mas que já não era real. O abandono inesperado tinha lhe acarretado mágoas profundas. Tão profundas quanto o amor que ela ainda sentia. Seus olhos negros como a noite perdeu a lua que o iluminava. Seu riso constante havia se apagado, feito fogueira no dia seguinte de São João. Suas mãos gélidas já não abraçavam mais ninguém, nem pretendia ser abraçada. Vinha se afastando de todos. Via-se em seu andar lento, em seu olhar lânguido, o vazio que todas aquelas lembranças lhe traziam. E a angústia que a acometia. Nem fotos tinha para contemplar o olhar tão saudoso, nem para comparar seu estado com o de antes. Suas atitudes desesperadas demonstravam a escuridão que a perseguia. E ela recorria ao choro, seu amigo constante. E em meio àquela loucura feria a si e aos demais, impotentes diante daquela situação. Só Maria poderia fazer algo para acabar com tudo aquilo. E ela fez.

            No dia mais significativo de todos, Maria acordou cedo. A saudade daquilo que um dia foram era devastadora e entrava pela janela disfarçada em raio de sol, para visualizar o desespero e a angústia de Maria. E em poucos minutos ela já estava fora de casa. Caminhou a passos largos a um ponto de ônibus próximo. Eu ainda tentei impedi-la e por um momento percebi medo em seu semblante. Ela mordia forte os lábios e esfregava as mãos, pensativa. Mas, resoluta, subiu no ônibus e dirigiu-se à praia, longe alguns quilômetros dali. No caminho lançou um último olhar ao lugar onde vivera a maior parte de seus poucos anos. E por um instante pareceu vê-la, também acordada e triste, através da janela. Talvez tenha sido apenas uma materialização do seu pensamento, fantasma tão constante em suas noites solitárias, a dar-lhe falsas esperanças, a dizer que voltaria, que não a deixaria só. A lua ainda estava no céu, aquela mesma lua que ela sempre esperava com grande entusiasmo para inspira-la em poesias, que nos últimos tempos tornaram-se funestas, presenciaria agora o seu ato alucinado. E eu estava lá, escondido sob as folhagens do coqueiro, mas não pude me aproximar. E vi tudo acontecer...

Primeiro ela escreveu uma mensagem na areia...  para ela. Suas mãos trêmulas, seu choro soluçado e sua pele lívida anunciavam o que ia acontecer. Foi quando ela, chorando, lançou um olhar em torno de si. E se viu só, como ela mais temia. Só agora eu percebo que aquele era um olhar de adeus. O sol começava a insurgir-se e a lua tinha de deixar o céu. Maria, como estrela que era, abriu os braços e foi com ela. Lançou-se mar adentro e foi engolida pelo reflexo final da lua no horizonte. Foi a última vez que eu vi Maria, e ela estava linda, radiante, certa de que agora ela estaria livre... para amá-la eternamente.

 

 

Carine Araújo

Escrito por Carine Araújo às 15h11
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